A internet sempre foi limitada: o problema é outro (uma pequena “teoria de conspiração”)

O título não é “sensacionalista” e eu vou explicar primeiro para argumentar depois.

É muito mais simples do que parece, normalmente é…

Imagine que eu tenho um bar que oferece um barril “interminável” de cerveja e, ao pagar para entrar no meu bar, você pode beber quanta cerveja quiser deste barril. Ou seja, a cerveja é “ilimitada”.

No entanto, eu sei que o meu barril leva 10 segundos para encher um copo de 100 mL. Além disso, meu bar fica aberto apenas 1 hora por dia, ou seja, 3.600 segundos a cada período de 24 horas.

Isto significa que se alguém começar a encher seu copo no exato instante em que eu abrir o bar e, sucessivamente, outros clientes continuarem enchendo seus respectivos copos de maneira ininterrupta enquanto meu bar estiver aberto, sem nenhuma pausa, ao fechar o bar o total exato de 36 litros de cerveja terá sido consumido do meu barril.

Veja: 3.600 segundos (equivalente a 1h, período em que o bar está aberto) divididos por 10 segundos (tempo para encher um copo) é igual a 360 (número de copos de 100 mL que poderei encher) que, multiplicados por 100 (número de mL em cada copo), totaliza 36.000 mL. Por fim, 36.000 mL divididos por 1.000 (conversão de mL para L) é igual a 36 L.

Note que, então, a cerveja não é tão ilimitada assim: embora você possa beber o quanto desejar (tendo a sensação de que não há limite), eu tenho certeza que não vou gastar mais do que 36 L de cerveja por dia somando o consumo de todos os clientes!

Observe, ainda, que você, cliente, poderia fazer esta conta a qualquer momento, precisando, para isto, apenas contar quantos segundos seu copo demorou para encher e perguntando o horário de funcionamento do bar. Mas você não vai fazer esta conta porque ela, aparentemente, não importa para você (desde que você possa beber quantos copos sentir vontade).

Com a internet é, e sempre foi, exatamente a mesma coisa!

Em termos técnicos

Todos os valores abaixo são aproximados.

Assuma uma conexão banda larga com limite de velocidade igual a 1 MB/s. Está fora do escopo deste artigo explicar o motivo, mas a velocidade real de download desta conexão é de 100 kB/s (10% da velocidade nominal que, neste exemplo, é de 1 MB/s).

Ou seja, esta conexão permitirá o tráfego de até 100 kB a cada segundo decorrido.

Se um dia possui 86.400 segundos (60 (seg) x 60 (min) x 24 (h)) e você utilizar toda capacidade desta conexão durante cada um desses segundos, ao final do dia você terá utilizado 8.640.000 kB (86.400 multiplicados por 100) ou, aproximadamente, 8.24 GB.

Eis que temos um limite: se mesmo utilizando a internet 24 horas por dia sem nenhuma pausa você só consegue “consumir” 8.24 GB, ao final de um mês com 30 dias a sua conexão estará limitada a 247.2 GB, para um serviço com velocidade igual a 1 MB/s!

Logo, toda conexão com velocidade igual a 1 MB/s está limitada a 247.2 GB de tráfego mensal e, de maneira proporcional, toda conexão com velocidade igual a 2 MB/s está limitada a 494.4 GB e assim por diante.

Portanto, em intervalos finitos de tempo, a velocidade sempre terá propriedade limitadora. Sempre!

Se sempre foi limitada, qual é o problema afinal?

A internet não passará a ser limitada porque sempre foi, conforme demonstrado acima. Ela terá sua velocidade (ao que tudo indica) drasticamente reduzida! Ou seja, o objetivo é desacelerar, tornar tudo mais lento.

Em parte, a justificativa de que o consumo atual de banda de internet no Brasil é demasiadamente grande é verdadeira, principalmente porque nossos provedores de internet estão longe de ter capacidade para entregar tudo o que prometem e vendem, especialmente com o crescente aumento desta demanda. Mas, se esse fosse o problema de verdade, haveria uma outra solução menos radical (que será citada em um momento mais oportuno, ainda neste texto).

O verdadeiro problema nasce na televisão convencional, passa pela falta de qualificação dos governantes perante aos (não mais tão) recentes avanços tecnológicos e termina na incapacidade da máquina pública de faturar mais com a montanha de dinheiro que circula, em grande parte, mas não apenas, no YouTube.

Falei besteira? Tem certeza?!

As propagandas na televisão diminuíram, o que pode ser evidentemente notado pelo tempo (agora mais curto) de cada intervalo e pela quantidade (agora menor) de intervalos entre os programas de TV em geral, em todas as emissoras “abertas”.

As produções estão cada vez mais “cinematográficas” e a troca de elenco entre emissoras nunca foi tão parecida com o futebol moderno: contratos de uma “temporada”, quando muito!

Cada vez mais você encontra comediantes, atores, músicos e outras “personalidades” (celebridades, se preferir) do mundo digital (em especial do YouTube) na televisão aberta: como convidados em programas de auditório, contratados para fazer propagandas de grandes marcas e até incorporados em novelas e programas já consolidados.

O motivo disto é bem simples: o público jovem assiste muito mais a canais de internet (novamente, em especial no YouTube) do que a televisão aberta e isto está causando prejuízos enormes para as emissoras – afinal, trata-se de uma geração inteira! Mesmo os programas criados para a TV aberta estão sendo assistidos no YouTube e não mais na própria TV!

Então o problema é só com a TV aberta? Definitivamente não!

Talvez ainda mais que a TV aberta, a TV “fechada” (por assinatura) está perdendo espaço e muito dinheiro: há uma tendência generalizada em cancelar este tipo de serviço porque, nos dias de hoje, ninguém vive sem internet e a internet oferece tudo aquilo que a TV fechada disponibiliza, seja através de serviços como YouTube e Netflix ou seja através dos famosos sites piratas.

Se você já precisa pagar pela sua internet e se a internet oferece tudo que tem na TV (e muito mais), não parece muito lógico continuar pagando mais pela TV.

Filmes, séries, shows e documentários estão sendo oferecidos na internet quase que ao mesmo tempo em que são exibidos nos canais de TV (abertos ou não), movidos especialmente pela facilidade tecnológica atual (que permite, por exemplo, a gravação da programação em mídia já digital com pendrives e HDs conectados diretamente ao televisor) e pela “alta” velocidade da internet, isto sem falar nas produções veiculadas apenas na internet, que são cada vez mais frequentes, com melhor qualidade e atraem cada vez mais público!

Opa, estamos chegando lá!

Então uma conexão rápida facilita o trabalho de alimentar a internet com conteúdo audiovisual (fornecimento) e, também, permite a visualização praticamente irrestrita deste conteúdo pelos “espectadores” (consumo).

Portanto, o problema vai muito além do simples consumo de banda que, como dito anteriormente e abrindo um parêntese, poderia ser resolvido com um simples bloqueio dos principais sites que oferecem pornografia gratuita (sim! Estes são os verdadeiros responsáveis pelo consumo excessivo de banda, mas não incomodam muito os canais convencionais de TV e “cairão” de qualquer forma com a redução da velocidade de conexão. Logo, estão fora de foco).

Há, também, uma tentativa de culpar os jogos eletrônicos por tal consumo. No entanto, para que um jogo possa fluir em tempo real com pessoas em diferentes localidades do globo, o tráfego de dados gerado não pode ser grande: o processamento ocorre no computador de quem executa o jogo e poucos dados, compactados, são de fato transmitidos pela rede.

Com isto em mente, afirmo sem medo: o verdadeiro problema está na “TV online”! O que está incomodando são os filmes, seriados e similares cada vez mais consumidos fora do alcance da TV e, com eles, a publicidade (dinheiro).

Deu tempo de observar que isto também, de certa forma, justifica a repentina fusão entre empresas que focavam suas vendas em telefonia e internet com empresas focadas em TV por assinatura?

E qual é o interesse do Estado nisso?

A resposta está sempre “no bolso”! O (até então enorme) faturamento da TV ia, em parte, parar no governo sem muito esforço por parte deste. Sempre foi assim, era fácil e imediato. Além disso, a TV sempre movimentou uma parte extremamente significativa da economia nacional e isso, por sua vez, sempre representou um alto faturamento para o governo.

O governo brasileiro não consegue regulamentar decentemente as profissões na área de TI e, como reflexo disto, não consegue também taxar todo dinheiro que circula hoje no YouTube (com publicidade) e em outros meios similares.

As autoridades “competentes” não possuem profissionais qualificados à sua disposição e, no fim das contas, quem fala mais alto é o interesse político-econômico de quem detém o poder.

No setor público (o setor privado de grande porte normalmente conta com respaldo técnico qualificado nas decisões tomadas por profissionais com outras formações), decisões são tomadas por grandes administradores, pessoas inteligentes, esclarecidas, mas que normalmente não possuem conhecimento ou apoio técnico para diferenciar kB (kilobyte) de kb (kilobit) e note que eu não estou tentando atacar ou diminuir nenhuma autoridade, mas o que vejo, na maioria das vezes, são advogados tentando fazer uma cirurgia cardíaca e médicos defendendo réus em tribunais!

O Estado está perdendo (deixando de ganhar) bilhões de reais que antes iam da TV convencional para seus cofres e que hoje estão indo da TV online para os bolsos dos “donos de canais”, produtoras independentes e para os famosos “YouTubers”, além da fatia que fica com a Google através do AdSense e do próprio YouTube.

Paralelo a isto, “a crise” também chegou até a TV convencional com força! O governo não consegue faturar da internet na mesma proporção que consegue com a TV convencional. A TV convencional, mesmo fragilizada, ainda movimenta uma parcela enorme da economia do país. A TV convencional faz, então, pressão no governo para obter seu apoio sob a pena de perder o faturamento obtido através dela (TV convencional). Sem o retorno esperado (e possível) da internet e com medo de perder o faturamento da TV convencional, o governo vai ceder e apoiar medidas que tirem a força da TV online e devolvam o poder à TV convencional.

O problema é que, ao fazer isso, regride-se mais de uma década – talvez duas. Mas como esperar que um médico, garantidamente remunerado, conheça (ou se esforce para conhecer) a constituição para defender um réu?

Só para não deixar de fora…

Eu baseei meus argumentos na TV, mas existem outros fatores que fogem um pouco do contexto deste artigo, mas são igualmente importantes como: a pressão da indústria cinematográfica perdendo força desde o cinema até a TV; as grandes lojas de departamento perdendo muitas vendas para mercados online alternativos; o enorme aumento do número de pessoas conseguindo seu sustento sem sair de casa e, com isso, consumindo menos serviços públicos; o incentivo implícito ao consumo da TV online através das “novas Smart TVs”; dentre muitos outros.

Tudo isto está diretamente ligado ao aumento do uso da internet e tudo isto resulta em mais pressão sobre o governo e sobre os provedores de internet.

Não se convenceu?

Nunca tive a intenção (nem a pretensão) de convencer ninguém de nada. Esta é a minha OPINIÃO (note que não há referências, exatamente porque não houve pesquisa). Espero, somente, que este texto o/a ajude a perceber que o que está sendo chamado de “limitação” é, na verdade, uma “redução”, além de, praticamente, uma censura velada e um controle silencioso do conteúdo digital.

Limite sempre houve. As conexões “apenas” ficarão escancaradamente mais lentas, mas fazer barulho a título de “limitação” ajuda a esconder os interesses maiores, disfarçados de “limitação técnica”.

E, no fundo, embora eu não goste, entendo a tentativa das emissoras de TV, especialmente as mais poderosas. Era isso ou fechar as portas exatamente em uma década ou duas.

 

Por Vinicius Zanovelli em 20/04/2016
Revisão ortográfica/gramatical:
Bianca Alcântara e Cibele Rodrigues

Este texto foi útil? Compartilhe!

Equipe Nix Tecnologia

Empresa especializada em soluções em TI. Visite nosso site e confira todo o nosso portfólio de serviços! Nix Tecnologia - Informática descomplicada!